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Capital do Gótico

Santarém

Sentada no alto de uma escarpa, com a lezíria do Tejo aos pés. Foi praça-forte romana, foi mártir visigoda, foi cidade moura, e desde 1147 é portuguesa. É daqui que saem as vossas futuras bolas.

Cinco nomes para a mesma colina

Cada povo que aqui passou deixou o seu. O último ficou.

  1. Scallabis O nome de fundação, anterior a Roma.
  2. Praesidium Iulium A praça-forte romana, no cruzamento do Tejo.
  3. Sancta Irene Os visigodos, pela mártir Santa Iria. É daqui que vem Santarém.
  4. Shantarin Os cinco séculos de ocupação muçulmana.
  5. Santarém Desde 1147, e para ficar.

Mas o primeiro nome nunca se perdeu: sobrevive em quem cá nasce. Quem é de Santarém é scalabitano — dois mil anos depois, a cidade ainda se apresenta por Scallabis.

15 março 1147

A noite em que a cidade mudou de mãos

Shantarin tinha muralha e tinha altura: quem estivesse lá em cima via chegar qualquer exército muito antes de ele chegar. Tomá-la de frente era impensável.

D. Afonso Henriques resolveu-a de outra maneira. Ao abrigo da noite, um homem da sua confiança subiu a muralha com um punhado de companheiros, chegou às portas e abriu-as por dentro. As tropas entraram sem cerco e sem assalto.

Foi a 15 de março de 1147. Meses depois, com Santarém segura na retaguarda, o mesmo rei tomaria Lisboa.

Por que lhe chamam Capital do Gótico

Nenhuma cidade portuguesa junta tanto gótico em tão pouco espaço. Faz-se a pé, de igreja em igreja, numa manhã.

Seis paragens
Todas a pé

Fachada da Igreja da Graça, em Santarém
A Graça, gótico flamejante Foto Joãofcf, CC BY-SA 3.0
A rosácea da Igreja da Graça, num só bloco de pedra

Gótico flamejante

Igreja da Graça

A rosácea é talhada num só bloco de pedra — é ela que dá o desenho desta página. Lá dentro estão os túmulos de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, e de sua mulher D. Isabel de Castro.

Séc. XIII

Igreja de Marvila

Gótico português com acrescentos manuelinos ao longo dos séculos, e painéis de azulejo que valem a visita por si.

Séc. XII

São João de Alporão

Antiga casa da Ordem de Malta, entre o românico e o gótico. Monumento Nacional desde 1910, hoje núcleo de arte e arqueologia do Museu Municipal.

Fundada em 1154

Santa Maria da Alcáçova

Levantada pelos templários sobre estrutura romana. Foi capela real até 1834. Três naves, colunas toscanas e azulejos dos séculos XVI e XVIII.

O relógio da vila

Torre das Cabaças

O nome vem das oito cabaças que aumentavam o volume do sino, para se ouvir nas aldeias em redor em tempo de perigo. Hoje guarda um pequeno museu.

O miradouro

Portas do Sol

Jardim na antiga alcáçova moura, debruçado sobre o Tejo. Daqui vê-se a lezíria inteira abrir-se até ao horizonte.

Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém
Marvila, séc. XIII Foto Carlos Luis M C da Cruz, domínio público
Torre das Cabaças, em Santarém
Torre das Cabaças Foto Carlos Luis M C da Cruz, domínio público
Rua do centro histórico de Santarém com torre sineira
Ruas do centro histórico Foto Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0

As nossas tradições

Lá em baixo, o Tejo alarga e alaga. O que para outros seria cheia, aqui é adubo: é a água do inverno que faz o pasto do verão — e é dessa terra que sai tudo o resto, do gado à mesa.

A lezíria

A planície aluvial do Tejo, aos pés da cidade.

O Tejo e a lezíria vistos das Portas do Sol, em Santarém
A lezíria, vista do alto Foto GualdimG, CC BY-SA 4.0

Todos os invernos o rio sai do leito e deixa o limo que fertiliza a terra. Dessa alternância nasceu uma paisagem de campo aberto sem muros à vista, feita para criar gado à solta.

O toiro bravo

As ganadarias do Ribatejo criam-se aqui.

Toiro bravo negro em campo aberto, entre azinheiras
Toiro bravo em campo aberto Foto LBM1948, CC BY-SA 4.0

O gado passa a vida no campo, com pouco contacto humano — é isso que lhe guarda a bravura. Nas festas das aldeias saem à rua nas esperas, e é a região inteira que vai ver.

O campino

Quem conduz o gado, a cavalo.

Campino a cavalo, de barrete verde, colete encarnado e pampilho na mão
O campino e o pampilho Foto F nando, CC BY-SA 3.0

Barrete verde, colete curto e o pampilho na mão — a vara comprida com que encaminha os toiros. Não é traje de festa: é roupa de trabalho que a região transformou no seu símbolo.

Os forcados

A pega de caras, de mãos nuas.

Grupo de forcados a fazer a pega de caras
A pega de caras Foto Espadeiro, CC BY-SA 3.0

Oito homens em fila, sem arma nem defesa: o primeiro agarra o toiro de frente, os outros seguram-no até parar. É a única figura da tourada portuguesa que se faz apenas com o corpo.

O cavalo lusitano

A outra criação da lezíria.

Garanhão lusitano no campo, junto a uma manada
Lusitano entre o gado Foto Julia Moll, CC BY 3.0

Criado para trabalhar de perto com o toiro, o que lhe deu a coragem e a agilidade por que é conhecido no mundo inteiro.

À mesa

O rio e a planície, no prato.

Fataça inteira assada numa telha de barro, rodeada de batata
Fataça na telha, com a batata a corar

A fataça na telha assa devagar sobre uma telha de barro, em lume de lenha, e é o prato que melhor diz o Tejo — come-se nas Caneiras, à beira-rio. Ao lado dela ficam a açorda de sável e a sopa de peixe do rio.

Fora do rio, o magusto de bacalhau, assado na brasa e regado com azeite, e a massa à barão.

A doçaria

Saída dos conventos, e de uma pastelaria.

Pampilhos, bolos compridos de doce de ovos, acabados de assar
Pampilhos acabados de sair do forno

Os celestes de Santa Clara vêm do convento com o mesmo nome: gemas e amêndoa, nada mais. Os arrepiados de Almoster nascem no mosteiro, de claras, amêndoa laminada, canela e limão.

E há o pampilho: um bolo comprido e fino, de doce de ovos, que a Pastelaria Bijou criou nos anos 70 com o nome da vara do campino. É a única vara que se come.

O vinho

A mesma planície que dá o pasto dá a vinha.

Cacho de uvas numa videira
Cacho de uvas Foto José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa, domínio público

Os solos de aluvião do Tejo fazem uma das maiores regiões vitivinícolas do país. A denominação chamou-se Ribatejo até 2009 e hoje chama-se Tejo — mudou o nome, não mudou o rio.

Acima está a denominação de origem; ao lado dela o Vinho Regional Tejo, o que por cá sempre se chamou vinho da terra — o de todos os dias, o que acompanha a fataça e o magusto.

O fandango

Dois homens, e o chão como instrumento.

Dois homens a dançar o fandango numa festa, um de barrete de campino
O fandango dança-se a dois, aqui com o barrete de campino

Dança-se frente a frente, sem tocar: cada um responde ao sapateado do outro, cada vez mais depressa, até um deles falhar. É a dança dos campinos e a mais conhecida do Ribatejo.

Duas vezes por ano, a cidade enche

Início de junho

Feira Nacional da Agricultura

A maior montra do que se faz na lezíria e no país agrícola: gado, cavalos, maquinaria, tourada e gastronomia. É a feira que dá a Santarém o título de Capital do Ribatejo.

Fim de outubro a início de novembro

Festival Nacional de Gastronomia

Semanas em que as cozinhas de todas as regiões se instalam na cidade. É a ocasião para provar o que a lezíria dá, sem sair de Santarém.

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