Gótico flamejante
Igreja da Graça
A rosácea é talhada num só bloco de pedra — é ela que dá o desenho desta página. Lá dentro estão os túmulos de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, e de sua mulher D. Isabel de Castro.
Sentada no alto de uma escarpa, com a lezíria do Tejo aos pés. Foi praça-forte romana, foi mártir visigoda, foi cidade moura, e desde 1147 é portuguesa. É daqui que saem as vossas futuras bolas.
Foto GualdimG, CC BY-SA 4.0
Cada povo que aqui passou deixou o seu. O último ficou.
Mas o primeiro nome nunca se perdeu: sobrevive em quem cá nasce. Quem é de Santarém é scalabitano — dois mil anos depois, a cidade ainda se apresenta por Scallabis.
Shantarin tinha muralha e tinha altura: quem estivesse lá em cima via chegar qualquer exército muito antes de ele chegar. Tomá-la de frente era impensável.
D. Afonso Henriques resolveu-a de outra maneira. Ao abrigo da noite, um homem da sua confiança subiu a muralha com um punhado de companheiros, chegou às portas e abriu-as por dentro. As tropas entraram sem cerco e sem assalto.
Foi a 15 de março de 1147. Meses depois, com Santarém segura na retaguarda, o mesmo rei tomaria Lisboa.
Nenhuma cidade portuguesa junta tanto gótico em tão pouco espaço. Faz-se a pé, de igreja em igreja, numa manhã.
Gótico flamejante
A rosácea é talhada num só bloco de pedra — é ela que dá o desenho desta página. Lá dentro estão os túmulos de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, e de sua mulher D. Isabel de Castro.
Séc. XIII
Gótico português com acrescentos manuelinos ao longo dos séculos, e painéis de azulejo que valem a visita por si.
Séc. XII
Antiga casa da Ordem de Malta, entre o românico e o gótico. Monumento Nacional desde 1910, hoje núcleo de arte e arqueologia do Museu Municipal.
Fundada em 1154
Levantada pelos templários sobre estrutura romana. Foi capela real até 1834. Três naves, colunas toscanas e azulejos dos séculos XVI e XVIII.
O relógio da vila
O nome vem das oito cabaças que aumentavam o volume do sino, para se ouvir nas aldeias em redor em tempo de perigo. Hoje guarda um pequeno museu.
O miradouro
Jardim na antiga alcáçova moura, debruçado sobre o Tejo. Daqui vê-se a lezíria inteira abrir-se até ao horizonte.
Lá em baixo, o Tejo alarga e alaga. O que para outros seria cheia, aqui é adubo: é a água do inverno que faz o pasto do verão — e é dessa terra que sai tudo o resto, do gado à mesa.
A planície aluvial do Tejo, aos pés da cidade.
Todos os invernos o rio sai do leito e deixa o limo que fertiliza a terra. Dessa alternância nasceu uma paisagem de campo aberto sem muros à vista, feita para criar gado à solta.
As ganadarias do Ribatejo criam-se aqui.
O gado passa a vida no campo, com pouco contacto humano — é isso que lhe guarda a bravura. Nas festas das aldeias saem à rua nas esperas, e é a região inteira que vai ver.
Quem conduz o gado, a cavalo.
Barrete verde, colete curto e o pampilho na mão — a vara comprida com que encaminha os toiros. Não é traje de festa: é roupa de trabalho que a região transformou no seu símbolo.
A pega de caras, de mãos nuas.
Oito homens em fila, sem arma nem defesa: o primeiro agarra o toiro de frente, os outros seguram-no até parar. É a única figura da tourada portuguesa que se faz apenas com o corpo.
A outra criação da lezíria.
Criado para trabalhar de perto com o toiro, o que lhe deu a coragem e a agilidade por que é conhecido no mundo inteiro.
O rio e a planície, no prato.
A fataça na telha assa devagar sobre uma telha de barro, em lume de lenha, e é o prato que melhor diz o Tejo — come-se nas Caneiras, à beira-rio. Ao lado dela ficam a açorda de sável e a sopa de peixe do rio.
Fora do rio, o magusto de bacalhau, assado na brasa e regado com azeite, e a massa à barão.
Saída dos conventos, e de uma pastelaria.
Os celestes de Santa Clara vêm do convento com o mesmo nome: gemas e amêndoa, nada mais. Os arrepiados de Almoster nascem no mosteiro, de claras, amêndoa laminada, canela e limão.
E há o pampilho: um bolo comprido e fino, de doce de ovos, que a Pastelaria Bijou criou nos anos 70 com o nome da vara do campino. É a única vara que se come.
A mesma planície que dá o pasto dá a vinha.
Os solos de aluvião do Tejo fazem uma das maiores regiões vitivinícolas do país. A denominação chamou-se Ribatejo até 2009 e hoje chama-se Tejo — mudou o nome, não mudou o rio.
Acima está a denominação de origem; ao lado dela o Vinho Regional Tejo, o que por cá sempre se chamou vinho da terra — o de todos os dias, o que acompanha a fataça e o magusto.
Dois homens, e o chão como instrumento.
Dança-se frente a frente, sem tocar: cada um responde ao sapateado do outro, cada vez mais depressa, até um deles falhar. É a dança dos campinos e a mais conhecida do Ribatejo.
Início de junho
A maior montra do que se faz na lezíria e no país agrícola: gado, cavalos, maquinaria, tourada e gastronomia. É a feira que dá a Santarém o título de Capital do Ribatejo.
Fim de outubro a início de novembro
Semanas em que as cozinhas de todas as regiões se instalam na cidade. É a ocasião para provar o que a lezíria dá, sem sair de Santarém.